Introdução a Liturgia
21/06/2012 20:45
Liturgia
Introdução
Estudar liturgia é preparar-se para celebrar a maior festa da vida cristã. Para compreendê-la melhor, precisamos responder algumas perguntas fundamentais:
- O que é liturgia?
- Por que celebrar?
- O que celebrar?
- Quem celebra?
- Como celebrar?
- Quando celebrar?
- Onde celebrar?
Nossa intenção é responder com humildade e objetividade a estas indagações. Para tanto vamos consultar o Dicionário de Liturgia, o Compêndio do Vaticano II, o Catecismo da Igreja Católica, o Documento 43 da CNBB (Animação da Vida Litúrgica no Brasil) e outras obras afins.
1. O que é Liturgia?
O termo liturgia provém do grego “leitourgia” que, “em sua origem indicava a obra, a ação ou a iniciativa assumida livremente por um particular (indivíduo ou família) em favor do povo ou do bairro ou da cidade ou do Estado”. Portanto, a liturgia era a “obra pública” assumida com liberdade.
Com o passar do tempo a liturgia perdeu o seu caráter livre e passou a significar um serviço obrigatório.
A tradução grega do Antigo Testamento apresenta a liturgia como sendo um “serviço religioso prestado pelos levitas a Javé, primeiro na ‘tenda’ e depois no templo de Jerusalém”.
Na Didaqué, a liturgia “se refere claramente à celebração da eucaristia” (Nº. 14).
No Concílio Vaticano II, por liturgia compreende-se “a ação sagrada, através da qual, com um rito, na igreja e mediante a igreja, é exercida e continuada a obra sacerdotal de Cristo, isto é, a santificação dos homens e a glorificação de Deus” (SC 7). O concílio afirma também que a liturgia “é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força” (SC 10).
À luz do Vaticano II e do Catecismo da Igreja Católica, a liturgia é “obra de Cristo” e “ação da sua igreja”. É o sinal visível da comunhão entre Deus e a humanidade através de Jesus Cristo (cf. SC 6 e CIC 1071).
2. Por que Celebrar?
Celebrar significa tornar célebre um determinado momento ou acontecimento da vida. O ato de celebrar faz parte da vida humana, é uma ruptura da rotina cotidiana. O liturgista italiano, Romano Guardini, fala da celebração como dimensão lúdica da vida que extrapola o tempo e o espaço.
Celebrar é comemorar, isto é, atualizar na memória algo em comunhão com alguém. “Em todos os tempos e lugares, homens e mulheres de todos os meios e níveis sociais, de todas as culturas e religiões, costumam realçar, ao longo da existência, aspectos fundamentais da vida individual, familiar, social e religiosa” (Doc. CNBB – 43 Nº. 36) e este realce se dá no ato celebrativo.
A celebração “nos leva a descortinar a grandeza de nosso ser e de nosso destino de imagens de Deus”. Ela “nos abre espaço para vivermos em comunhão que é o anseio profundo de nosso ser social” (Doc. CNBB – 43 Nº. 38).
A história já vivida por alguém, grupo ou país é outra razão pela qual se celebra. Aqui surgem os diferentes tipos de celebrações: cívicas, sociais, religiosas...
Na religião a celebração ocupa um espaço privilegiado. Em se tratando da religião cristã, “a celebração consiste na memória do acontecimento fundante do Povo de Deus, isto é, a morte e ressurreição do Senhor, que perpetua na História a salvação que Cristo veio trazer a todos” (Doc. CNBB – 43 Nº. 39).
3. O que Celebrar?
Em toda e qualquer celebração o centro é a VIDA. Celebramos a vida. A vida provoca e faz acontecer a celebração que, por sua vez, compreende uma simples festa de aniversário até um fato que envolva todo o mundo.
Referindo-se à celebração litúrgica o que se celebra é a “vida de Deus no meio do povo” em vista de comemorar o mistério da salvação. O projeto de comunhão de Deus com o seu povo e “que chamamos de obra da salvação, foi prenunciado pelo próprio Deus no Antigo Testamento e realizado em Cristo. Hoje a Liturgia o celebra, isto é, o rememora e o torna presente na Igreja” (Doc. CNBB – 43 Nº. 44).
Portanto, podemos dizer que o ponto central da liturgia cristã é o Mistério Pascal. Por mistério pascal compreendemos a plenitude da presença de Deus no meio do seu povo na pessoa de Jesus, desde a sua encarnação até a ressurreição. “O mistério pascal de Cristo é o centro da História da salvação e por isso o encontramos na Liturgia como seu objeto e conteúdo principal. Esse mistério envolve toda a vida de Cristo e a vida de todos os cristãos” (Doc. CNBB – 43 Nº. 48).
Hoje, somos convidados “a celebrar os acontecimentos da vida inseridos no Mistério Pascal de Cristo”.
4. Quem Celebra?
Em nossas comunidades é comum ouvir frases tais como: “Padre, é o Senhor que vai celebrar hoje?”; “Quem celebrou a missa domingo passado foi o padre fulano”; “Naquela comunidade quem celebra é cicrano”; “Vamos assistir a celebração naquela igreja”. Afinal de contas quem é mesmo que celebra?
O Catecismo da Igreja Católica responde esta indagação afirmando que “é toda a comunidade, o corpo de Cristo unido à sua Cabeça, que celebra” (CIC 1140).
Jesus Cristo é o único sacerdote, o celebrante principal. Nós somos convocados pelo Espírito Santo para celebrar com Jesus e com os demais membros da comunidade.
Celebrar é participar como sujeito e não como mero assistente. Na celebração litúrgica a pessoa torna-se participante de toda a vida de Jesus de Cristo (Mistério Pascal) e da vida de seus irmãos e irmãs inserida neste mistério de salvação. Portanto, quem celebra é toda a comunidade reunida em assembléia.
O êxito de uma celebração está diretamente ligado à diversidade de funções atribuídas aos membros de sua assembléia. De fato, a assembléia litúrgica “é uma comunidade reunida, mas nunca de modo massificado. Não é massa nem público. Articula-se em torno de diversas atividades específicas distribuídas entre seus diversos membros”. Sabemos também que “essas atividades, funções e papéis são, pois, verdadeiros serviços ou ministérios, porque ajudam a assembléia” a celebrar a vida de forma plena.
Dentre os principais serviços lembramos a “acolhida, leitura, canto, oração, ofertório, assistência à mesa-altar, presidência”.
5. Como Celebrar?
A esta questão, responde o Catecismo da Igreja Católica: “na vida humana, sinais e símbolos ocupam um lugar importante. Sendo o homem um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as realidades espirituais através de sinais e de símbolos materiais. Como ser social, o homem precisa de sinais e de símbolos para comunicar-se como os outros, através da linguagem, de gestos, de ações. Vale o mesmo para a sua relação com Deus” (CIC 1146).
Indubitavelmente, a celebração litúrgica expressa seu significado mais profundo através de uma variedade de sinais, símbolos, gestos e ações. Para aprofundar esta questão achamos oportuno apresentar um resumo da obra “Vamos Celebrar” do Pe. Gregório Lutz:
Caminhar
Quando vamos a um determinado lugar é normal que, no caminho, haja uma preparação para um encontro (ex.: ir ao médico, à festa, ao teatro, etc.). Em se tratando da celebração não pode ser diferente. É importante que enquanto caminhamos até a Igreja façamos uma preparação para melhor celebrar o mistério pascal de Jesus Cristo.
Caminhando chegamos ao local da celebração e encontramos com os irmãos na fé e, juntos, nos deparamos diante de Deus.
No decorrer da celebração temos mais motivações para caminhar:
- procissão de entrada: o presidente e a equipe celebrativa caminham até o altar e, consigo, levam toda a comunidade ao encontro com Deus;
- procissão da palavra: os leitores caminham até o ambão donde proclamam o texto sagrado, significando a resposta de Deus que vai ao encontro da comunidade;
- procissão das oferendas: toda a comunidade é convidada a caminhar e oferecer sua vida a Deus;
- procissão da comunhão: Deus caminha ao encontro da comunidade oferecendo-se em alimento.
Celebrar de Pé, Sentado e Ajoelhado
Estar de Pé:
“Os fiéis permaneçam de pé: do início do canto de entrada, ou do momento em que o sacerdote se aproxima do altar, até a oração do dia inclusive; ao canto de aclamação antes do Evangelho; durante a proclamação do Evangelho; durante a profissão de fé e a oração universal; e da oração sobre as oferendas até o fim da Missa”, exceto eventualmente durante a consagração e a oração em silêncio depois da comunhão (cf. Introdução Geral Sobre o Missal Romano, N. 21).
O estar de pé significa prontidão, estar atento, livre...
Ficar Sentado:
“Sentam-se durante as leituras antes do Evangelho e durante o salmo responsorial; durante a homilia e enquanto se preparam os dons ao ofertório; e se for conveniente, enquanto se observa o silêncio sagrado após a comunhão” (Introdução Geral Sobre o Missal Romano, N. 21).
O ficar sentado favorece o recolhimento, a escuta acolhedora da Palavra e a sua meditação.
Ajoelhar-se:
“Ajoelhem-se durante a Consagração, a não ser que a falta de espaço ou o grande número de presentes ou outras causas razoáveis não o permitam” (Introdução Geral Sobre o Missal Romano, N. 21).
Ajoelhar-se é uma atitude de humildade e adoração.
Celebrar Olhando e Ouvindo
Na celebração o “olhar” e o “ouvir” são de uma grande abrangência. Olhamos o local da celebração e logo notamos sua limpeza, a ordem, a decoração, as flores, o presbitério, o altar, as velas, a cruz, o ambão, o sacrário, as imagens...
Olhamos também as pessoas (presidente da celebração, ministros, acólitos, coroinhas, leitores, comentarista, animadores e os demais irmãos e irmãs.
O nosso olhar se dirige ainda a cada ação litúrgica e aos sinais sacramentais.
Com os olhos da fé vemos o mistério de Jesus Cristo, no local da celebração e naquilo que é feito durante a mesma.
É notável também que durante toda a celebração saibamos ouvir (saudações, convites, exortações, cantos, leituras, homilia, orações...).
Lembramos ainda que o ouvir em silêncio favorece uma maior introspecção e interiorização.
Celebrar Rezando e Cantando
Não menos importante é o celebrar rezando e cantando. Através destas atitudes a assembléia dialoga com Deus, sai da passividade e interage-se.
Rezando e cantando responde-se às orações, às leituras e acompanha-se as procissões e a fração do pão. Com estes gestos a assembléia participa da oração eucarística não apenas interiormente, mas também pelas aclamações. Juntos os fiéis recitam a profissão de fé, elevam suas preces e rezam o Pai-Nosso.
Rezando e cantando a comunidade torna-se sujeito da ação litúrgica e entra em comunhão com a Trindade.
Celebrar Comendo e Bebendo
Comer e beber são atos sagrados para o ser humano. Portanto, essenciais na celebração litúrgica.
Comendo e bebendo o Corpo e o Sangue de Cristo atinge-se o ápice da celebração e da comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs.
Comendo e bebendo nos alimentamos e, no caso da celebração, nos nutrimos do sustento e do fortalecimento da vida de Cristo. É a plena participação da vida do outro, portanto deve ser um ato prazeroso e repleto de amor.
6. Quando Celebrar?
Todo ato celebrativo tem o seu quando, o seu dia. “O quando é festa. Há celebração quando há festa”. A festa situa-se num determinado tempo. Em se tratando da festa cristã sua celebração acontece em datas que se faz memória de acontecimentos que Deus realizou em favor de seu povo.
A festa semanal: domingo
É importante lembrar que “desde o princípio da vida da Igreja, os cristãos aparecem como pessoas que se reúnem regularmente num dia fixo, num dia determinado, a saber, o primeiro dia da semana”. O primeiro dia da semana é o domingo, ou seja, “dia do Senhor”. Os cristãos se reunião no primeiro dia da semana para a partilha da Palavra e do pão (cf. At 20,7).
O primeiro dia da semana “é o dia da ressurreição e dos encontros com o Ressuscitado” (cf. Mt 28,1; Mc 16,1-2.9; Lc 24,1.13; Jo 19,31; Jo 20,1.19).
O domingo é “o dia memorial da ressurreição de Jesus, de sua exaltação e constituição como Senhor... o dia da grande libertação”. É o dia próprio para a assembléia cristã se reunir e celebrar o Mistério Pascal e a sua vida inserida neste mistério libertador.
É no domingo que se dá a festa da fraternidade. Além do encontro com o Cristo vivo dá-se o encontro com os irmãos e irmãs. Em fraternidade os cristãos se reúnem para celebrar a festa da vida que é sempre alimentada com a partilha da Palavra e a fração do pão.
A festa anual: páscoa
O domingo, como já foi visto, é o dia da festa para a semana. Para o ano a festa acontece com a páscoa, considerado o grande domingo. A páscoa é a “festa das festas”. A páscoa é a festa da libertação, a passagem da morte para a vida. A Páscoa é o centro da vida e da fé dos cristãos.
Para compreendermos melhor esta festa anual é necessário conhecer também a estrutura do Ano Litúrgico.
O ano litúrgico “está organizado em ciclos festivos, onde se quer celebrar primordialmente o mistério da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, a herança histórico-litúrgica do povo hebreu, a vida e a fé dos primeiros seguidores de Jesus e a nossa vida de seguidores da herança recebida”. Assim sendo, temos o ciclo do Natal, o ciclo da Páscoa e o tempo comum.
Ciclo do Natal: o ano litúrgico começa com o advento. A característica do advento é a preparação para celebrar o nascimento de Jesus, a encarnação do Verbo, a presença de Deus em nosso meio. Esse tempo litúrgico termina com a festa do Natal, celebrada no dia 25 de dezembro. O Natal “é um tempo forte de alegria, de festa, de solidariedade e de oração mais intensa”. A festa do Natal se estende até as celebrações da epifania (manifestação do Senhor) e do batismo de Jesus.
Ciclo da Páscoa: para bem celebrar a “festa das festas” que é a páscoa, temos como preparação a Quaresma. A quaresma inicia-se na quarta-feira de cinzas e constitui-se num período forte de oração, penitência e conversão. Depois dos 40 dias quaresmais, temos a semana santa que inicia-se no Domingo de Ramos, atingindo seu ápice com o Tríduo Pascal. O tríduo se fundamenta na unidade do mistério pascal de Jesus Cristo, que compreende sua paixão, morte e ressurreição. Segundo o Missal Romano, em suas Normas Universais Sobre o Ano Litúrgico, “o Tríduo pascal... começa com a Missa vespertina da Ceia do Senhor, possui seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as Vésperas do domingo da Ressurreição” (N. 19). Deste modo, celebramos de quinta para sexta-feira a “Paixão”, de sexta-feira para sábado a “Morte”, e de sábado para domingo a “Ressurreição”. A festa da páscoa contínua ainda por mais 50 dias até o Pentecostes.
Tempo Comum: além dos ciclos do Natal e da Páscoa temos também o “chamado Tempo Comum”. Nele acontece a maior parte das celebrações. Situa-se entre “o Tempo do Natal até o início da Quaresma e após o Tempo da Páscoa até o início do Advento”.
Além da festa semanal (domingo) e da festa anual (páscoa), o ano litúrgico comporta outras festas que são dedicadas a Maria, aos apóstolos, aos mártires, aos santos padroeiros...
7. Onde Celebrar?
O verdadeiro espaço para a celebração é constituído pela assembléia mesma que “prevalece sobre a realidade local físico-geográfica, arquitetônica”. Independentemente do local, seja ele, uma igreja, uma residência, um salão, debaixo de uma árvore ou à margem de um lago, o essencial é a presença real da pessoas, da comunidade reunida.
O lugar onde a celebração acontece é na própria assembléia. “A Igreja enquanto comunidade de crentes reunidos, congregados em torno de Cristo, é o novo templo” (cf. Ef. 2,19-22; 1Pd 2,5).
É sabido, pois, que o verdadeiro templo de Deus é o coração humano. É na assembléia reunida que Deus se faz presente. Mas devemos considerar que esta assembléia litúrgica, quase sempre, precisa de abrigo e proteção. Daí também a importância do templo de pedra, a igreja material. O templo deve refletir e expressar a presença de Deus que se manifesta na assembléia litúrgica. Portanto, a igreja deve ser um local que favoreça a mística e viabilize a celebração do Mistério Pascal. Todos devem sentir a celebração como ápice de suas vidas.
Com estas humildes idéias, descritas com carinho e ternura, intentamos despertar uma maior paixão pela celebração litúrgica.
Pe. Denilson Aparecido Rossi, imd (Cido)
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BIBLIOGRAFIA
- Dicionário de Liturgia
- Compêndio do Vaticano II
- Catecismo da Igreja Católica
- Doc. CNBB, Nº. 43 – Animação da Vida Litúrgica no Brasil, São Paulo, Paulinas, 1989
- VALLE, Pe. Sérgio F., A Liturgia na Catequese, São Paulo, Paulinas, 1993
- RIBEIRO, Eliomar, Liturgia – festa da vida, São Paulo, CCJ, 1998
- BOROBIO, Dionisio, A Celebração na Igreja, Vol. I, São Paulo, Paulinas, 1990
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